Cooperativismo no novo cenário tecnológico bancário

Cooperativismo no novo cenário tecnológico bancário

Cooperativismo no novo cenário tecnológico bancário

As cooperativas de crédito nas últimas décadas vêm comemorando índices de crescimento muito acima da média do mercado e de forma sustentada.

Por Alcenor Pagnussatt

Com a realização do CIAB Febraban 2015 – maior evento de tecnologia da informação do setor financeiro da América Latina – ganhou destaque nos meios de comunicação a análise da evolução e das tendências dos serviços financeiros. Analistas e futuristas dos serviços financeiros convergem para seguinte situação e tendências:

  1. O mundo atual está completamente interligado por conta dos celulares, atingindo todas as gerações e não somente os mais jovens;
  2. A partir destes dispositivos móveis as operações financeiras e bancárias podem ser realizadas entre os pares e semelhantes, sem qualquer intermediação das instituições;
  3. As aplicações serão definidas por algoritmo de cálculo e não mais por produto de investimento. A pessoa informa o prazo e retorno esperado e o software vai definir o lastro e realizar a operação;
  4. Em poucos anos (uns estimam em 10 anos) terá nas ruas a metade das agências de hoje;
  5. As novas gerações só vão ao banco quando são obrigadas. Por isso as agências vão evoluir para assistência técnica, aonde os clientes irão raramente, quando têm um problema sério em sua conta e não resolvível pelos meios de comunicação;
  6. O restante estará no celular. Nem mesmo para investir e realizar operações de crédito o “olho no olho” será necessário. O cliente informa sua necessidade/interesse e o algoritmo da instituição formata e, a comando do cliente, realiza a operação;
  7. Alguns preveem que haverá uma divisão entre estruturação, mais regulada e realizada por bancos como os de hoje, e distribuição, em que a experiência do cliente será on-line e poderá ser feita por novas empresas de tecnologia;
  8. As instituições acomodadas ou com falta de coragem para a modernização de sistemas e serviços não terão vida longa;
  9. O grande desafio dos bancos é substituir os bilhões aplicados em imóveis e pessoal nas agências por dispositivos móveis;
  10. Muitos bancos já estão avançados com o projeto de substituição;
  11. Companhias que não têm este legado estão vindo com novas tecnologias como é o caso do M-Pesa e o Paypal já contabilizando mais de 1 bilhão de pessoas fazendo transações por celular no dia a dia;
  12. O BRE Bank, da Polônia, foi ainda mais radical, eliminando todas as suas unidades físicas e se transformando em um banco 100% digital chamado mBank. Apesar da ruptura, o banco conseguiu migrar 71% dos seus correntistas para o novo modelo.

Quando observamos o porcentual de pessoas nas ruas, praças, refeições, aeroportos, rodoviárias, reuniões, etc. comunicando-se quase que exclusivamente pelas redes sociais via celular, parece-nos evidente a previsão dos especialistas.

No Brasil este é um cenário não muito distante. Conforme relatório da Febraban, das 28 bilhões de transações bancárias realizadas em 2010, 14% eram realizadas de forma presencial nas agências. Em 2014, o número de transações aumentou para 46 bilhões e destas apenas 8% ainda são realizadas nas agências. Neste período o Mobile Banking liderou a evolução, saltando de 4% para 12%, o Internet Banking de 36% para 41%, enquanto o uso de Terminais de Auto Atendimento (ATM) diminuiu de 29% para 21%.

xxEsta tendência deve se acelerar nos próximos anos. Sabe-se, que, a exemplo do que ocorreu com os ATM num passado recente, os principais bancos estão “encaminhando” seus principais clientes para atendimento exclusivo em canais eletrônicos, compartilhando as vantagens da redução dos custos operacionais.

A necessidade de pesados investimentos em TI será mais um motivador da unificação da infraestrutura de retaguarda entre o Banco do Brasil e a Caixa Econômica Federal, mesmo com pressões corporativistas contrárias. Não será surpresa se a unificação dos terminais de autoatendimento entre os bancos líderes seja apenas o primeiro passo para a unificação das soluções de retaguarda de TI, ficando o atendimento como diferencial individual.

As cooperativas de crédito nas últimas décadas vêm comemorando índices de crescimento muito acima da média do mercado e de forma sustentada. Grande parte deste crescimento foi garantido pelos vigorosos programas de sedimentação dos princípios cooperativistas focados no sentimento de pertencimento, pela segurança alicerçada nos instrumentos sistêmicos de controles internos e no Fundo Garantidor das Cooperativas (FGCoop), pela excelência no atendimento e pelas vantagens tributárias e participação nos resultados dos sócios-clientes. Mas é pouco provável que estas estratégias sejam suficientes para manter o crescimento do cooperativismo de crédito neste novo cenário tecnológico.

O sinal amarelo gerado pelo distanciamento em relação aos bancos da estrutura de custos operacionais, impõe às cooperativas de crédito o desafio de migrar do modelo estrutural inovador dos anos 80, adequado à realidade do relacionamento pessoal presencial, para um modelo que leve em consideração a nova realidade do acesso à informação e à tecnologia dos associados, dirigentes e corpo funcional. Tudo isso sem perder de vista os princípios e diferenciais cooperativistas.

Entidades e processos, que se constituíram em fator de sucesso refletido em excelentes indicadores de crescimento sustentado até o presente momento, comprometem a capacidade competitiva num ambiente de serviços financeiros eletrônicos e precisam ser revistos. Além disso, a associação tributária dos Governos às receitas e lucros dos bancos que não atingem as cooperativas não será suficiente para compensar a diferença de custo operacional entre bancos e cooperativas, hoje já superior a 100% quando comparados aos ativos totais.

A solução passa pela substituição do modelo estrutural administrativo segmentado para um modelo tecnológico fundamentado no 6º Princípio do Cooperativismo (Intercooperação) e ações cooperativistas locais como diferencial competitivo.

 

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Alcenor Pagnussatt, formado em Administração de Empresas e especialização em gestão de cooperativa pela Organização Mundial do Trabalho em Turim. É sócio fundador da ACBrasil Assessoria e Consultoria para Cooperativas, já foi Diretor Administrativo da Cooperativa de Crédito de Soledade, presidente da Cooperativa Central de Crédito SICREDI/RS, Confederação SICREDI e Confederação Nacional de Auditoria, além de conselheiro da OCERGS e OCB, Coordenador do Conselho Especializado do Crédito da OCB e Superintendente da UNICRED do Brasil.

 

Fonte: Portal do Cooperativismo Financeiro

 

 

 

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